deixou de beber numa das terças-feiras mais normais do ano. normal por ser terça-feira e não domingo de páscoa ou mesmo quarta-feira de cinzas. subia a escadaria para a cúpula de uma igreja onde viria do alto e do longe o mar. apoiava-se no corrimão e ia deixando de sentir em si a sede que sempre o acompanhara. lembrar-se-ia sempre desse
dia,lembrar-se-ia mais tarde que não podia matar o passado daquela terça feira, nem matar a sede dos anos em que deixou de sentir a própria língua. sabia que se não bebesse, mais tarde ou mais cedo, pela secura ficaria sem voz e daria o seu corpo a ouvir aos outros. sabia também que nunca morreria de sede como os catos, resistiria ao deserto das suas múltiplas vidas calado. mudo como as pedras secas do sodré, por verem de tão perto a água, perdeu também a vontade de se humedecer. naquela terça-feira a madeira do corrimão sugou-o, tirou-lhe a vontade de falar. naquele dia normal o corrimão contou-lhe as histórias de todas as mãos, de todas as gentes que ali se apoiaram. anoiteceu-se-lhe o sorriso pelas as gentes más e pelas tristes como também pela desesperada mulher que tinha perdido um filho que por
orgulho não precisou do corrimão. arrepiou-se de espanto pela correria das crianças que quase nunca lhe tocaram, riu atónito pelo beijo do seu vizinho do terceiro direito a uma amante que ninguém conhecera. viveu coisas que não eram dele e que agora lhe pertenciam. teve ali todas as historias. todas as forças superiores às palavras eram suas. sabia que acordara do sono dos falantes. bastar-lhe-ia tocar, soprar digitalmente com as mãos no corrimão e os outros seriam a sua história. um dia voltaria ali, regressaria para rever o mar lá do alto e apoiar-se-ia no corrimão para sentir o que este lhe dizia sobre si. sabia, de todo modo, uma das histórias que o corrimão lhe contaria, tinha certeza que o corrimão de madeira agora velho e picado pelos bichos lhe diria que numa terça-feira do passado seria o seu primeiro dia de sede. sabia que tinha morrido num dia normal sem ter tocado no corrimão e que ali o choravam.

Rui effe